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Se fosse cardíaca já teria sucumbido, fulminada pelas surpresas da vida. E hoje era um dia tão bom para me finar... lá fora, o sol a iluminar-me o dia... Sim, hoje seria um bom dia para me finar...

 

A surpresa? A surpresa é uma daquelas surpresas que raramente nos acontecem. Verdade! O Delito de Opinião receber-me assim, de uma forma tão amável... Nem dá para acreditar. Um blogue que nos acolhe amavelmente desde o início, que é como chegar a casa, uma casa alegre, onde se ouvem outras vozes animadas, e risos, muitos risos... E onde há filmes e livros, fotografias, histórias de viagens... e onde se trocam ideias e sempre de forma calma e sensata... Uma casa assim é muito útil sobretudo nos meses de inverno, digo-vos já. Os meses de inverno passam a voar, porque aqui é sempre Natal e depois são os Óscares e, quando menos esperamos, pim!, já é Páscoa de novo e o sol volta a  aquecer-nos a alma...

 

E porque é que tem um significado especial? Porque o Pedro foi o primeiro a reparar num rio que começou a navegar há 3 anos... nele vai a Marilyn, o Robert Mitchum e um rapazinho (metáfora de uma família poética), nesse rio às vezes calmo às vezes bravio e livre (a vida).

Obrigada, queridos Delitos! Muito especialmente ao Pedro, mas também à Teresa, à Ana Vidal, à Leonor, e ao João Carvalho. Pelo amável convite e por me terem aturado até hoje. Porque eles sabem que eu sou mesmo chata! Um grande abraço blogosférico!

 

 

 

publicado às 09:42

O corporativismo português

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.07.10

Descobri hoje n' O Insurgente um magnífico post, Nada contra o Estado (Social), de André Azevedo Alves, que se refere, por sua vez, a um magnífico post de Helena Matos, O povo do meio - nova espécie identificada no ecossistema do Estado Social.

 

Esta é a dimensão do corporativismo português, já com muitos anos de tradição, adaptou-se de forma magnífica a vários regimes e a vários estilos, a partir do momento em que se centralizou a gestão política e financeira.

É um dos obstáculos à modernização da administração pública e incompatível com uma democracia de qualidade. É que numa democracia de qualidade o Estado serve os cidadãos, não os povos do meio e os povos de cima. Numa democracia de qualidade o Estado presta contas de como anda a gerir os impostos dos contribuintes.

 

A organização política e financeira, à séc. XXI, é completamente contrária a corporativismos de qualquer espécie. A organização do futuro, que já se desenha à nossa volta mas que a Europa e muito particularmente o nosso país, não querem ver, é muito semelhante à organização celular de um organismo vivo e complexo como o corpo humano. Células altamente especializadas mas suficientemente autónomas para poder intervir de imediato. Isto implica o quê? Uma informação geral actualizada, acessível a cada segundo. E uma organização flexível, ágil, em que cada um sabe qual é o seu papel. Ou mesmo em que cada um pode ter de efectuar outro papel, mas tendo acesso à informação na hora. Incrível, não é? Já imaginaram sistema mais eficaz? Se o nosso corpinho fosse organizado pelos povos do meio e povos de cima portugueses, não viveria um minuto. Cada órgão reinvindicaria os seus privilégios e o primeiro a sucumbir seria o cérebro, pois está muito bom de ver...

 

 

Não percam igualmente, do André Azevedo Alves e n' O Insurgente, o post The Inner Party. Sigam o link daquele fabuloso título, O cão comeu o meu TPC, de Sérgio dos Santos e atentem bem naquela pirâmide. Proles... estão a ver bem? Proles... são a maior fatia, pagam o estrago e estão completamente de fora da festinha...

 

 

 

publicado às 08:51

"As parangonas dos jornais dizem tudo sobre quem efectivamente manda"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.05.10

Isso foi ontem. Nos jornais de ontem. A senhora Merkel. Que, pelos vistos, se viu grega para convencer os alemães a salvar os gregos. Muito me admira se não fizer voz grossa aos irresponsáveis portugueses que andam a brincar aos comboios... É essa a minha esperança, e que isso aconteça antes da assinatura do contrato de concessão. Será que esta pressa toda tem a ver com as indemnizações que o Estado lhes terá de pagar no caso de vir a ser denunciado? Não vejo qualquer outra razão. E o contribuinte paga. Acham mesmo que os alemães estão para brincadeiras? Eu não. Já estão a olhar para os cidadãos gregos nas ruas, hoje parece que tentaram invadir o parlamento e tudo. Tudo sinais que dificilmente irão conseguir cumprir a sua parte do acordo.

E por cá? Já viram que os portugueses têm uma estranha noção de "timing"? É por isso que não são bons nas comédias. É que a noção de "timing" é essencial na comédia. Como têm uma péssima noção de "timing" também será agora que irão para a rua protestar. Pois agora é que já não dá para protestos de rua. Isso tinha sido há 4 anos atrás quando este governo revelou que iria enveredar pelo caminho errado. No tempo do OE 2008. Não perceberam? Bagão Félix fartou-se de avisar. Depois foi Medina Carreira. Mas a voz oficial martelava diariamente a sua "grande mentira" não era? E é mais doce e suave ouvir uma mentira, não é?

 

Já me alonguei de novo. A frase do título do post vem de uma voz dissonante que passa muito por esta esplanada: Sobre o Tempo Que Passa.

 

Aqui vai um excerto do post: O Zé é aconselhado por Merkl, a receber lições de grego não arcaico. Explicador, precisa-se! 

 

"  As parangonas dos jornais dizem tudo sobre quem efectivamente manda. Basta sabermos ver quais as forças vivas que mais estão a lucrar milhões por dia. Basta vislumbrarmos quem melhor consegue pressionar a enfraquecida força do ministerialismo. Basta seguirmos o verbalismo da propaganda do ministro Mendonça de Melena Y Pá. Enquanto isto, lá está Merkl a aconselhar o Zé. Que, para ser efectivamente Sócrates, tem de seguir lições de grego não arcaico e descobrir o conselho inscrito no oráculo de Delfos sobre o conhece-te a ti mesmo. Há por aí um explicador disponível que Cavaco vai receber: chama-se Medina Carreira e já foi ministro PS, bem como da Fundação de Monjardino, antes de ser sacerdote do realismo do vivermos com aquilo que temos e que o situacionismo diaboliza com processos e tremendismo...

(...)

Apesar de tudo, a forças vivas que deram emprego a Franco Nogueira e Durão Barroso ainda encabeçam embaixada de lóbi à terra de Obama, para que se melhore a imagem da República, enquanto continuam a desfilar, em demagogia, os louvaminheiros do costume e os políticos pândegos que tanto são secretários de estado da inducação como do emprego...

Portugal já não é um bom aluno da integração europeia e já nada é porreiro. Até o principal argumento de defesa do situacionismo está na circunstância de invocarem que tudo seria bem pior se estivéssemos fora do euro. O que parecia tornar-nos num oásis está a transformar-se em tormenta, com os papagaios do costume apenas mudando o sinal ao bico...

Hoje, a Europa é uma coisa com vários pés e outros membros feitos de barro: tem Barroso na cabeça, Mar da Palha como tratado, um flamengo com nome impronunciável, como formal senhor dos senhores, enquanto uma baronesa britânica, socialista e tudo, só para lá foi porque franceses e alemães não quiseram o Blair...

O Bloco Central foi há mais de vinte e cinco anos e durou o tempo de Soares, do FMI e de Ernâni Lopes, com os restos de João Salgueiro, Rui Machete e outros sub-secretários e assistentes do tempo do marcelismo que, no PSD, não resistiram a Conceição Monteiro, Marcelo, Barroso, Santana Lopes, Júdice e Helena Roseta, até que a síntese dos oposicionistas emergiu como Cavaco...

(...)   "

 

 

publicado às 14:08

Como podemos "aprender com os gregos?"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.04.10

Mais uma voz dissonante e de novo d' O Cachimbo de Magritte. Jorge Costa tem sido uma das vozes mais insistentes a alertar para a nossa situação real, a desmontar números e gráficos, a mostrar-nos os bastidores deste grande circo de plástico em que o governo transformou a nossa organização colectiva. Post a post, a verdade impõe-se.

Para lá do matraquear diário nas televisões, a crise está a passar, já se notam sinais de uma ligeira recuperação, parece que o pior já passou, não somos gregos, não nos podem comparar com a Grécia...

... pois não, não somos... teve o Presidente de ir à República checa para lhe dizerem que sim, que somos gregos.

 

O pior é que nos vamos ver gregos para sair do buraco onde nos meteu a irresponsabilidade governativa destes 5 anos.

O pior é que nos vamos ver gregos para vislumbrar uma saída que não passe pelas situações-limite que já atingem quase metade da população portuguesa.

O pior é que nos vamos ver gregos para recuperar o tempo perdido, as energias desbaratadas, o entusiasmo perdido, a confiança traída.

 

É que os sinais têm de vir de cima! Para os cidadãos perceberem, os sinais têm de vir de cima!  

E o que é que lhes têm dito? Têm-lhes mentido diariamente nas televisões, nos comentários, nos pseudo-debates e nos palanques plastificados de serviço.

 

A esperança, que Jorge Costa aqui refere como palavra vã, tão cara aos políticos, é muito mais importante do que poderemos pensar. Sem ver um caminho à frente, uma saída possível, os cidadãos não se mobilizam nem entendem sequer a lógica de mais sacrifícios. Sem ver esse caminho possível, em que todos estão envolvidos, a pedalar no mesmo sentido, pelo colectivo, vão reagir como os gregos, de forma desorganizada e caótica, na revolta e não na mobilização.

A esperança, não a palavra vã dos discursos de circunstância, mas a que mobiliza, parte daí, dos sinais de cima, de que se tem um governo a sério, com adultos responsáveis que dão o exemplo, que dizem a verdade, que desmontam a mentira, que põem os pontos nos is, que explicam o que é preciso ser feito.

E não me venham dizer que um político que diga a verdade não tem hipótese. Isso é o discurso oportunista de quem ainda quer aproveitar os últimos recursos de um país falido. Os alibis esgotaram-se. Ou ainda ninguém viu? O Presidente checo disse-o claramente, que estaria nervoso por apresentar um défice daqueles, ele disse nervoso, mas poderia ter dito envergonhado.

Nenhum governo a sério de um país que se preze ainda se segura nesse alibi da crise internacional ou da globalização. Ou os outros países não estão sujeitos ao mesmo mundo da crise global e da globalização? E ainda por cima quando o nosso nem veria a crise a passar por aqui... Shame on you!

 

Ainda são poucas as vozes dissonantes a desvendar a verdade, um Medina Carreira e um Bagão Félix (economia), um Pires de Lima (Justiça) e mais uma ou duas vozes na blogosfera... e, espero eu, um ou dois políticos que possam em breve fazer a diferença.

 

 

Aqui vai o post de Jorge Costa, Aprender com os gregos:

 

 

"  Vale a pena ler quase sempre o Kathimerini. Não se trata apenas da necessidade de vermos como a enorme crise por que estamos a passar é vivida no seu " epicentro. É porque o jornal é bom, e os seus editoriais invariavelmente excelentes. Curtos e directos ao assunto. O de hoje merece especial atenção. Ele deve ser lido na íntegra. O editorialista dá por adquirido que a Grécia terá de arranjar maneira de reduzir os salários não só no sector público, mas também os de todos «os membros produtivos da população», ao mesmo tempo que terá de aceitar uma redução das pensões de reforma e um aumento da idade de aposentação. A questão, por lá, não é a de saber o que fazer imediatamente. Está prescrito e, como refere muito lucidamente o editorialista, «deixámos já de ter escolha» - trata-se do facto simples, na sua enunciação, de que a Grécia vai ter de mudar «radicalmente de estilo de vida», e isso é dito sem qualquer pathos. E, uma vez dito, o essencial está por dizer. O que é essencial? Aqui transcrevo:

Em que género de país pode o cidadão que se sacrifica esperar sobreviver no futuro? Esta é a mais fundamental das questões de momento, e quase impossível de responder. Um esforço para lhe dar resposta deveria, porém, ser feito, não apenas pelos políticos, mas pelas próprias pessoas.

Ignoro a que ponto a sensibilidade do editorialista é partilhada na sociedade. Em todo o caso, a questão que levanta é a questão. Deles, gregos, e nós, portugueses. Nenhum político digno desse nome, lá como cá, se poderá eximir a medir-se pela dimensão de tal desafio. Não vivemos tempos vulgares. Não há pressupostos de vida colectiva e nacional e, portanto, individual ou familiar, que não estejam, de uma maneira ou outra, postos em causa. Não precisamos de «esperança», essa palavra vaga e quase sempre traindo, quando enunciada no discurso político, uma impostura. Precisamos de enfrentar a verdade, saber colocar as questões mais duras, mais difíceis, mais inesperadas. E, quando formos capazes dessas perguntas, não em imaginação, mas como questões vitais, decisivas, certamente que aprenderemos a responder-lhes.

Entretanto, vale a pena lembrar todos os dias, que estamos, nós, portugueses, pelo menos dois passos atrás desse momento: ainda não realizámos o que temos de fazer para lidar com o imediato presente (é falacioso dizer que os diagnósticos estão feitos), que continua a ser fantasiado como um nuvem má e passageira, quanto mais com a pergunta radical: que país é o que queremos que sobreviva à destruição por que terá de passar? Precisamos de saber o que queremos do futuro, sabendo que não poderemos esperar que ele seja, de certeza, como foi no já longo passado que nos conduziu a esta encruzilhada histórica. Temos, pois, ainda muito a aprender com os gregos. Deixar de lado a dilação e lidar com tudo isto a partir da velha questão: ser ou não ser...  "

 

 

publicado às 13:12

"Deslaçamento", o termo certo a caracterizar actualmente o país

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 16.04.10

Vinha hoje falar de Primavera, porque ontem li no Público um texto sobre o tema, do Miguel Esteves Cardoso, mas fica para amanhã, porque entretanto li outro texto magnífico de Pacheco Pereira, n' Cachimbo de Magritte. Carlos Botelho deu com este texto no Abrupto e replicou-o quase por inteiro. Aqui vou colar apenas este excerto que define o nosso percurso recente, descrito de uma forma quase poética, e com o termo certo a caracterizar o país actual, o "deslaçamento" social.

 

Aí vai:

 

" ... Pois é. Isto é o Portugal que falhamos, o Portugal que ignoramos, o Portugal que deixamos deslaçar, fragmentar, perder-se numa deriva para a obscuridade que as luzes do espectáculo fátuo em que vivemos não alumiam. E no entanto, há muito desse Portugal lá fora: mineiros, pescadores, agricultores, operários, trabalhadores da construção civil, empregadas da limpeza, marinheiros, gente que faz os trabalhos menos qualificados nos hospitais, nas escolas, nas autarquias, numa deriva para a pobreza, para o desemprego, para o fim da breve esperança de um Portugal melhor e mais justo. Claro que há outro Portugal, mais jovem, mais culto, mais dinâmico, apesar de tudo com mais expectativas realizáveis e menos peso de más condições de vida ancestrais. Mas, mesmo esse, está em crise, mesmo esse prepara-se para emigrar, prepara-se para se soltar na esperança da mobilidade social. Mas o nosso drama é o deslaçamento entre os dois mundos, a perda de contacto entre as realidades sociais diferentes, o afastamento de portugueses dos portugueses e a ignorância, quando não a indiferença, que os afasta uns dos outros.

É por isso que não queremos saber para nada dos mineiros de Neves Corvo e da sua arcaica greve. Na verdade, nunca houve muito cimento entre os portugueses, mas agora há menos e tudo trabalha para que ainda haja menos.  "

 

Só por curiosidade: Não é a primeira vez que este cantinho replica um texto de Pacheco Pereira. Há aqui outro, magnífico, sobre as mulheres portuguesas. De vez em quando Pacheco Pereira inspira-se assim, de forma absolutamente poética de tão realista. Quase parece um documentário visual. 

 

publicado às 12:49

Ah, a Primavera...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.04.10

A Primavera finalmente a suavizar-nos os dias... A esplanada abriu de novo, as vozes tornam-se mais animadas.

Esta Primavera trouxe-me também uma surpresa! Um amável convite da Maria João Marques (Atlântico, O Cachimbo de Magritte, O Insurgente) para colaborar na Farmácia Central. Conseguem imaginar a minha surpresa? Primeiro foi incredulidade, depois alegria infantil, pura e simples.

Hoje, pela primeira vez, escrevi num blogue colectivo. Juntei a minha voz a outras vozes de bloggers que admiro. Deixem-me, pois, saborear o momento. Uma coisa é escrever no meu cantinho, onde capto as vozes dissonantes, outra coisa é colaborar num projecto comum. A emoção é completamente diversa, de outra natureza.

Sim, a Primavera já me trouxe uma grata surpresa!

 

 

publicado às 21:49

Sobre a imprensa escrita

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.04.10

Ricardo Arroja iniciou esta análise no Portugal Contemporâneo, André Abrantes Amaral continuou-a n' O Insurgente, e entretanto Luís Naves juntou-se-lhes no Albergue Espanhol. Esta última perspectiva é a mais pessimista, aliás. E André respondeu.

Já fui leitora de jornais, O Independente, o Público... Hoje só levo um jornal se os temas me interessarem, e isso depois de passar os olhos pela página frontal, seja o Sol, o Público ou o Jornal de Negócios, mas já não é com a mesma frequência. Tal como o André, também me tenho baseado na blogosfera para obter uma informação mais fidedigna. E não são boatos, como diz o Luís, porque cruzo os dados e concluo o puzzle, pelos elementos que observo. Muito deste trabalho faz-se por dedução.

Quanto à informação dos telejornais na televisão, não confio. Aqueles números... aquelas interpretações dos números... nem pensar. É pura ficção para consumo de massas, digam-me o que disserem.

 

 

publicado às 12:54

Um "sermão" muito invulgar...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.04.10

O vento impediu-me de abrir a esplanada. Apesar do sol, ainda lembra o Inverno. A Primavera demora. Espero, pois, pacientemente. Pelos vidros da janela observo a realidade, como em laboratório, sem lhe tocar, sem me deixar perturbar. A voz dissonante que trouxe comigo vem de novo do Albergue Espanhol. A voz é sempre rebelde e sempre emotiva. Desta vez trata-se de um sermão muito invulgar. Tem o Santo António, os peixes e um aquário e tudo. De certo modo, também eu me sinto aqui como num aquário. A olhar pelos vidros da janela...

 

Aí vai este Sermão de Santo António aos peixes que querem ir para o aquário de Belém.

 

 

  por José Adelino Maltez 

 

 

Há quem julgue que só existe aquilo que pode medir-se, segundo o cientificismo mental que pensa deter o monopólio do rigor, mas que, de tanto planeamentismo, não conseguiu prever a presente crise e nos amarrou às trombas dos principais elefantes brancos que nos escravizam em dívidas...


Portugal, se tem de submeter-se para sobreviver, não pode deixar de lutar para continuar a viver como comunitariamente se pensa. Só ousados engenheiros de sonhos nos podem mobilizar em saudades de futuro...


Só a flexibilidade das naus nos pode dar o pragmatismo e a aventura de uma visão do paraíso, aqui e agora, neste mundo e no nosso tempo, onde sempre é possível a redescoberta do transcendente situado...

 
Os poetas e profetas são mais verdadeiros do que os pretensos criadores de cenários políticos. E os falsos futurólogos do planeamentismo construtivista dos processos históricos, económicos ou financeiros...


Se os parcos factores de poder que ainda restam à liberdade nacional e à vontade de sermos independentes não receberem o sopro de um pensamento com entusiasmo, e de um entusiasmo com pensamento, poderemos reeleger recandidatos, mas não seremos passado presente com capacidade para pilotarmos o futuro, sem medo de ter medo...   "

 

 

 

publicado às 01:00

"As eleições do PSD interessam ao CDS?"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 25.03.10

Amanhã os militantes do PSD vão decidir qual dos candidatos será o seu próximo presidente , muito provavelmente, o próximo primeiro-ministro.

 

No Suction With Valche©k, Eduardo Nogueira Pinto coloca uma pergunta interessante: As eleições do PSD interessam ao CDS?

 

Vou replicar o post na sua totalidade porque o achei muito interessante e perspicaz. Aliás, ainda é rara no país esta dimensão da análise política, que vai além de vantagens imediatas (e aí a sua conclusão seria diferente), para um plano que se projecta no tempo e que prevê tornar-se muito mais vantajoso para todos os envolvidos, e sobretudo para o próprio país. É, pois, uma lufada de ar fresco no bafio insuportável da maioria das análises políticas.

O autor analisa as duas grandes motivações do CDS, naturais e legítimas: expandir-se (e será também à custa do PSD), ou construir um compromisso. E qual a que deve predominar neste momento, relativamente à sua preferência por um dos dois candidatos. Por outras palavras, qual é o candidato preferível para o CDS?

 

Aí vai: 

 

  No essencial, há duas formas possíveis de o CDS olhar para o PSD: como o concorrente directo cujo eleitorado interessa ir conquistando ou como uma condição natural e (para já) necessária para chegar ao poder.

 

Nenhuma destas abordagens é absolutamente certa ou errada; e quem já tenha defendido a primeira não está de modo algum impedido de, em diferente contexto, defender a segunda. A bondade de cada uma depende sempre de uma análise caso a caso, que tenha em atenção as circunstâncias políticas do país, o objectivo imediato do partido na altura em que se propõe pô-la em prática e, claro, a existência ou não de um mínimo denominador comum com o PSD.

 

Como não pode deixar de ser, a forma de o CDS olhar para estas eleições do PSD depende muito de qual destas duas abordagens interessa seguir no futuro próximo: continuar a crescer à custa do PSD ou criar condições para uma aliança entre os dois partidos.

 

Porque na política privilegio a ideia de combate, inclino-me, naturalmente, para a primeira opção. Já tive oportunidade de dizer no CDS que o partido deve ir fazendo o seu caminho sozinho, pois apenas sozinho terá as condições ideais para propor aos eleitores um caminho diferente do que tem vindo a ser seguido nos últimos anos. 

 

Mas nem todos os tempos são tempos de falcão. Há alturas em que a luta política – que é sempre uma luta pelo poder, mesmo quando a estratégia usada põe de lado o acesso imediato aos centros a partir de onde este é exercido – tem que passar pelo compromisso. E esta, a meu ver, é uma delas.

 

Depois do resultado alcançado nas legislativas passadas, o CDS tornou-se incontornável para qualquer solução de governo alternativa ao PS e à esquerda. Nessa medida, quando chegar o momento de substituir o PS, o eleitorado dificilmente compreenderá que o CDS não faça o que estiver ao seu alcance para viabilizar tal alternativa. Goste-se ou não, os tempos vão obrigar a compromissos.

 

À luz desta grelha, Paulo Rangel é o melhor candidato. É o político com melhores condições para um entendimento pré ou pós eleitoral à direita. Tem categoria intelectual bastante para não sair diminuído ao lado de Paulo Portas e mais sólidos pontos de contacto ideológico e programático com o eleitor não socialista do que Pedro Passos Coelho. Até porque o pensamento de Passos Coelho é demasiado volátil, não se percebendo se assenta numa ideia de fundo para o país ou em emergências tácticas de ocasião. Para já não falar do facto de por entre os seus "ideólogos" estarem diversas figuras hostis a muito do eleitorado que vai ser necessário captar para voltar a ganhar eleições.

 

Mas Rangel traz também a promessa de ruptura. Uma ruptura que, para lá do carácter meramente retórico da expressão, se dirige a uma certa cultura política saída do 25 de Abril: dos infindáveis direitos adquiridos, tantos deles prejudiciais entre si; do Estado providencial, que, por a tudo e a todos querer acudir, acabará por deixar cair os mais fracos; da luta de classes e de culturas aplicada ao mais ínfimo aspecto da vida e do quotidiano; da Administração como prémio ou degrau de carreiras partidárias em vez de ofício para servir o país. Uma ruptura com uma mens politica que terá feito sentido no Portugal dos anos 80 mas que hoje, por ser obsoleta, é uma causa de estagnação. Uma ruptura com uma cultura que continua presente em muitas das estruturas orgânicas do PSD (e do CDS), e que por isso é também uma ruptura interior.

 

Não espero revoluções e cada vez sou mais céptico quanto à capacidade de os governos de pequenos países, como Portugal, mudarem o que quer que seja. Mas acredito que, com pequenos passos, é possível, quanto mais não seja, melhorar o ambiente político. As pessoas, depois, encarregar-se-ão ou não do resto. A eleição de Paulo Rangel seria um desses pequenos passos.

 

por Eduardo   "

 

 

 

E também reflectir sobre: a preferência do PS, aqui descrita por Nuno Gouveia, n' O Cachimbo de Magritte, em Socialistas preferem Passos Coelho.

 

 

Um dia depois: O CDS escolheu a primeira opção, a expansão. Com o apoio à recandidatura do actual Presidente, um dia antes de se saber quem vai liderar o PSD. Agora, só lhe falta mesmo que Passos Coelho ganhe... Passos Coelho será a sua via verde para a expansão garantida, à custa do eleitorado do PSD.

Pessoalmente, já não tenho de me preocupar com eleições presidenciais, por falta de candidatos. A minha única consolação é não ter contribuído para o cavaquismo nem para esta presidência medíocre. (E para que não haja dúvidas, o único em que votei e que chegou à Presidência foi Eanes em 76. De resto, vi sempre os meus candidatos ficarem em segundo...)

Até me admira que o próprio Presidente não se veja ao espelho: não tem perfil para o cargo, nem sequer motivação. Naquele Roteiro filmado na televisão, pelo seu quotidiano presidencial, pareciam um casal de reformados num Lar de 3ª idade... onde já não há qualquer energia vital, ânimo, inspiração... Como é que alguém, completamente amorfo e distanciado da realidade, pode inspirar um país? Está em perfeita sintonia com o país, isso sim! Só lhe falta mesmo tomar Prozac. Mas infelizmente (para nós) os políticos não se olham ao espelho, a não ser para fazer a barba e compor a gravata. Se assim fosse, poupavam-nos embaraços e pior!, não nos empatavam o futuro!

Enquanto vigorar no país esta cultura política absolutamente medíocre, baseada nas personagens e não nas ideias, em tácticas oportunistas e não em estratégias inteligentes, não vamos a lado nenhum... Foi o que disse ontem Medina Carreira, que enquanto não se renovar esta gente (ele fala assim) não temos futuro enquanto país. Sim, como disse Mota Pinto na AR: faltam-nos verdadeiros estadistas...

 

 

 

publicado às 13:29

O PEC: marca registada socialista e o fim dos alibis

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 20.03.10

A partir deste PEC, há ainda quem acredite no alibi da crise internacional, que aliás nem passava por aqui?

 

A partir do PEC, há ainda quem duvide que esta é a marca registada socialista: sugar os mais frágeis da sociedade, os pobres e os remediados, amnistiar os faltosos fiscais e proteger essa amálgama que vive  da máquina estatal?

A finança, em vez da economia?

A estagnação, em vez do crescimento?

A "nova elite", em vez do interesse geral?

A pobreza generalizada, em vez da racionalidade e da justiça?

As enormes diferenças sociais, em vez da coesão social?

 

Mas a verdade é que os eleitores voltaram a apostar em Setembro nesta grande mentira, mesmo depois de verificarem que as promessas de 2005 não tinham sido respeitadas. E se essas não foram respeitadas, o que os levou a acreditar de novo que estas últimas seriam?

É certo que a campanha decorreu sob outras grandes mentiras: o valor real do défice, da dívida pública, do desemprego, etc.

 

Com este PEC, o que é que o PS, ou antes, o governo (porque o PS já é apenas o governo e o governo, apenas o PM e o ministro das Finanças), quer esconder?

 

Ontem, no Expresso da Meia Noite, na Sic Notícias, um economista reparou que o valor que pretendem arrecadar com as privatizações se aproxima do valor gasto no apoio aos bancos em apuros e com a nacionalização do BPN. Conclusão do economista: este PEC nem sequer tem uma lógica racional, mas uma lista de soluções avulsas...

 

A meu ver, ainda haverá muito mais por desvendar, mas o que nos interessa agora é que as pessoas, que preferiram iludir-se mais uns tempos, como se isso fosse possível, vejam bem que o socialismo moderno, como se intitulam, não existe, é um equívoco, um perverso equívoco.

 

Nem sequer as boas intenções se lhes podem atribuir como atenuante para este PEC. Os socialistas modernaços mostraram a sua marca registada: adoram os ricos e famosos, aliás idolatram-nos e protegem-nos, e desprezam os pobres e remediados, escravizando-os com impostos.

E nem sequer a competência lhes podemos reconhecer como argumento: o PEC não é racional nem permite o crescimento da economia. É mais uma solução tecnocrata que agrada aos burocratas de Bruxelas. A sua aplicação leva metade do país à pobreza. Mas nada que incomode os burocratas...

 

Sim, que depois deste PEC as pessoas percebam finalmente o que é este socialismo modernaço, e criem anti-corpos que os protejam de próximas ilusões.

De qualquer modo, a ironia divina já está a funcionar: contrariamente ao que nos queriam convencer, não é o PSD que está em vias de extinção, mas o próprio PS. A dúvida é: será por implosão ou por desmantelamento? Ainda não sei, mas uma coisa já descobri desde ontem: será com grande estrondo.

 

 

 

Um dia depois: E tudo isto já estava inscrito no OE 2008. Bagão Félix alertou para esse facto e por diversas vezes... Ninguém reparou?

 

Mais sobre o PEC: D' O Cachimbo de Magritte, alguns posts muito interessantes: Vai haver crescimento nos próximos anos? Provavelmente não, independentemente do que fizermos, de Jorge Costa, e Sacrifícios em nome de quê?, de Paulo Marcelo.

 

E ainda, impor o PEC à oposição e ao país, com base na chantagem: Esta tentativa do ministro das Finanças, de colar os partidos da oposição a este PEC com o argumento A Bem da Nação para passarmos no teste dos burocratas de Bruxelas e das agências de rating, é mais uma chantagem inadmissível. Aliás, além do PM, este é um autêntico pro em chantagem.

Paulo Rangel já desmontou isto. Agora só espero que pelo menos o PSD não ceda a mais nenhuma... O PEC é deles, só deles, é a sequência natural da sua desgovernação de 5 anos, de ilusões e mentiras, levadas até à ilusão e mentira final. Tem a sua marca registada, que já estava inscrita no OE 2008. Quiseram governar sozinhos durante 4 anos e meio e agora não tomam nenhuma iniciativa sem querer colar os restantes partidos às suas invenções medíocres? Se querem negociar, aprendam a negociar. No entanto, duvido que este governo consiga aprender a negociar. Só sabe chantagear. E vitimizar-se. Lá fora utiliza operações de charme para vender o produto, cá dentro utiliza a chantagem e a vitimização.

 

 

publicado às 15:30


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